Sete Vidas



"Sete Vidas" é um curta-metragem brasileiro onde um gato é a reencarnação de um escritor.

Mostra o cotidiano do gato e das sete pessoas que ele adicionou à sua agenda diária para poder se relacionar. A narração feita por Selton Mello na voz do gato, conta com muita criatividade e ironia.

A história gira em torno de sete pessoas que acreditam ser donas de um gato, um mesmo gato. São sete solitários, e certamente, por seu isolamento social, cada um deles impõe ao felino suas frustrações, expectativas e manias. Por conta disso, dão-lhe nomes e tratamentos diversos. O gato, um escritor reencarnado, é que narra, ele mesmo, sua nova condição. E, ao falar das vantagens de variar de dono, acaba por contar também um pouco do cotidiano de cada um deles: as verdadeiras "sete vidas" do título.

Chega uma hora que ele tem de tomar uma importante e difícil decisão: escolher a quem ele pertence afinal.

É muito interessante a maneira como ele expõe as qualidades e os defeitos dos sete donos, e como ele chega a conclusão.

Isto serve não só para o bichano, mas também para todo relacionamento. Respeito e liberdade são fundamentais.


 
"Vamos explicar a coisa assim: Eu morri. E morri convicto de que esse negócio de reencarnação era uma grande bobagem. Hoje, devo ceder aos fatos. Aqui estou. De novo. Agora assim: todo peludo, e articulando as variantes possíveis da palavra… miau. Pois é, você tem que aprender isso: escritores reencarnam como gatos. E não me perguntem o por quê? Entre o instante da minha morte e o entendimento de que eu sou um felino,ninguém me explicou nada.nada de anjos, São Pedro, guias espirituais... E olha, eu não quero roubar a tranqüilidade de ninguém, mas eu não vi nada parecido com Deus. Foi como dormir Homem e acordar Gato. Aquela situação meio gráfica de amanhecer transformado sem maiores esclarecimentos. Pois é! Comigo foi assim.

Eu moro no mesmo bairro de antes. A Freguesia do Ó.
Nesse lugar ficava a minha casa, olha aí! Coisas não vivas também renascem e de modo igualmente sem sentido. Olha aí!

Fiquei procurando alguém conhecido, um rosto que me lembrasse o passado, mas nada. Parentes e amigos daquele tempo morreram todos. Devem ter reencarnado em outros bairros, ou, outros bichos.

Eu, bom, eu vivo sozinho. Pelo menos eu tento. Certas pessoas insistem na estranha idéia de que eu pertenço a elas. Fazer o que, né? Eu tiro partido disso, e vou levando a vida.

Eu passo algum tempo aqui. Aqui, em cima da mesa desse homem. O velho é um redator de obituários. Ainda que seja de uma categoria esquisita, ele é um escritor. Ficar olhando assim ele trabalhando, me transporta aos tempos antigos... Eh! Ficar aqui é uma garantia, de silencio e de paz. O homem é quieto, digita nesse maquinário datilográfico silencioso, tranqüilo. Ah! Coisa boa! É o céu, ou o que me restou para chamar de céu. Eu não sei mas acho que a minha presença dá a esse homem alguma satisfação. Às vezes pego ele me olhando. Olha só! Ele fica me olhando com uma cara que chega a esboçar alguma coisa que lembra felicidade. E aí eu sinto que pago a ele pela hospedagem aqui.

Chê...Ham! Ele me chama de Chê. Eu chamo ele de Miau, mas o nome dele é Meireles.

Como eu não vivo só de dormir, eu saio né, dou uns passeios. Eu penso que seja necessário uma explicação. Apesar de ter consciência de que eu fui humano, de que eu fui um ser civilizado, agora, neste meu atual estágio, eu sou governado pelo instinto, pelas necessidades básicas. Então, não julguem, não condenem as minhas preocupações, meu cotidiano, meus procedimentos. A respeito desse meu discurso, eu sou um gato. Eu sou e tenho orgulho.tenho orgulho e tenho apetite sexual. Aliás, mais apetite sexual do que orgulho.

Essa aí é a Adelaide. É uma artista plástica aqui da freguesia. Ela é uma mulher, uma mulher que eu chamo de semi depravada. Ela sofre daquele mal que acomete as personagens do Nelson Rodrigues. Uma pessoa cheia de pudores, convivendo duramente com seus desejos carnais... E, pensando bem, o próprio Nelson sofria disso. Bem, danem-se os dilemas humanos. Venho aqui porque de vez em quando tem umas orgias bem animadas de gatos. Várias escritoras, e o tesão da Adelaide é ver nós gatos assim, juntos.

Ela normalmente não fala nada. Sobre sexo, então, nem pensar. E o resultado é isso. Ela fica aí modelando figurinhas entrelaçadas, vultos sugestivos de gente se mordendo. Ela modela também bocas. O forte dela é modelar bocas. Mas sempre com palavras reprimidas. Eh! Ela parece estar se divertindo muito. Mas eu não. Então antes que ela venha pro meu lado de novo vou sair bem rapidinho.

Bom! Agora bateu a fome. Hora de ir pra casa de Dona Bezinha. Olha a velha aí! Coitada! Olha a animação!

Ih! Lá vem ela. Ai! Velha louca! Eu só me submeto a esses excessos amorosos por causa da comida. Oh! Eu acho bom a comida estar boa hoje viu Dona Bezinha! Todo dia é assim. Todo dia tem esse ritual, mas vale a pena. A comida é ótima. Mas quando ela começa a tentar fazer carinho... Não sabe 'lufas'. Olha isso! Olha isso! Faz carinho em cada lugar... Não. E tem mais. Vocês não adivinham o nome que essa velha me deu. 'Úrsula'. É! Entendeu? Essa velha infeliz pensa que eu sou fêmea. Ela olha de vez em quando pro meu saquinho e resmunga um comentário sobre a minha vagina! Velha louca! Fica rindo assim sozinha. Velha louca!

Ih! Agora ela vai querer me entupir de comida. Bom! Eu fico aqui o suficiente pra um almoço. Pra 'um' almoço. Eu espero uma distração da velha, como agora, e oh! Vou saindo.

Próxima parada, Igreja do Padre Glicério, o homem que adora uma boa música. Ele sempre me espera para uma tarde de sons e sonos. Olha só! Ele leva essa coisa de ritual bastante a sério. E insiste em dividir comigo um chá que ele toma. Basta uma boa música. Isso ele tem de sobra. É assim, todo dia. Ele fica me esperando, como num ritual. Primeiro, eu tenho que me deitar. Só depois é que ele vai para o lugar dele. E finalmente começamos nosso sarau eletrônico. Ficamos os dois assim, ouvindo. Raramente ele sai da Paróquia. A música é que o leva pra longe. Mas ele sempre volta à realidade. Ele sabe que tem que cumprir sua função aqui na Igreja. Bom! Não agora. Antes ele me perseguia pela Igreja. Uma verdadeira cruzada. Daí o fato de ele me chamar de Graal. Agora ele anda bastante resignado. Por que será?

Todo bairro de periferia tem um ferro velho. O da Freguesia do Ó é esse aqui. No meio desse lixo é possível encontrar ratos, escorpiões, besouros, vermes, baratas, e esse homem... Diógenes. Ele é o dono daqui. Eu acho. Ele é um louco, um obcecado por sobras, pelo resto dos outros. Ele odeia e ama tudo que esta aqui. Ele diz que é comandado por forças superiores, diz que é o eleito, e que eu sou o demônio, eu sou aquele que vive no chão. Aí diz umas pragas, umas premonições. Eu costumava vir aqui para satisfazer o instinto da caça. Mas, agora, sinceramente, eu não sei por que eu venho, ele está completamente maluco. Antes ele me chamava de Chulé, porque eu me esfregava nos pés dele. Agora ele me agride. Como explicar esse homem? Como explicar o fascínio que eu tenho por ele? Parece ser necessário hoje, que alguém dê a sociedade, a medida do que não é civilizado. Que alguém represente o lixo, e que pareça reciclá-lo.

Aqui perto tem um prédio simples onde moram o Cláudio e Ana. Eles são casados há uns sete meses. Casal engraçado! Com sorte, um chega do trabalho a tempo de ver o outro saindo. Ela trabalha de dia. É recepcionista de um consultório longe pra 'Dedeu'. Ele trabalha a noite, num Bingo, do outro lado da cidade. O meu interesse principal aqui está nesses móveis de vime. Eu adoro ficar neles, deitar neles, destruir eles. E como ainda eles estão pagando as prestações, eles não gostam muito disso. Olha! Eu não sei exatamente como aconteceu. Eu simplesmente entrei. Mas, o fato é que cada um deles imagina que o outro é que me trouxe pra dentro. Entendeu? Ela pensa que eu sou dele. E ele pensa que eu sou dela. Resultados disso, os dois me chamam de O Gato, se é que isso pode ser um nome. Eles ficam levando essa vidinha, e com isso, eles imaginam estar amando um ao outro. Alguém lhes disse que em um relacionamento, ceder é fundamental. E aí, por conta disso, estão cedendo desde o primeiro dia do matrimônio. Por enquanto ainda estão juntos, graças a esse apartamento. Digo, graças a esse afastamento. Mas, qual o sentido disso tudo? Por quê? Pra que reencarnar novamente nesse bairro? Por quê eu tenho convivido com esses estranhos solitários?

Eh! Estou ficando velho! Eu acho que vou ter que escolher entre meus donos um que mereça o título.

Com certeza não vou ficar com o casal Cláudio e Ana. Aquilo não será um casal por muito tempo. E quando a verdade vier à tona, vai acabar sobrando pra mim.

O Diógenes é um louco! E anda me agredindo demais, está me tratando que nem lixo.

O Padre, por outro lado é um cara bem simpático, mas eu sinto que brevemente ele vai largar a batina, e nossas tardes musicais na Igreja vão acabar.

A Adelaide anda muito possessiva. Fica me agarrando toda hora... Parece que ela quer transar comigo.

Ah! E quem recentemente resolveu cuidar da minha vida sexual foi a Dona Bezinha. Aquela que mal sabe distinguir um pinto de uma pinta. Ela arranjou um gato que se chama Raul, e podou para cruzar comigo. Preciso explicar alguma coisa?

Então, o que é que me resta. Bom! Eu tenho aqui o Meireles. Até que não é uma má opção de dono, e ele cumpre certos requisitos bem importantes. Ele nunca me bateu, não forçou a nada, nunca tentou me prender. Ao contrário. Ele me deu acesso a tudo que ele possui. Graças ao buraco na porta, ele me deu o acesso a tudo aquilo que ele não possui. Ele me deu lugares pra ir, e um bom lugar pra ficar, se eu quiser. É isso! Eu quero. Eu quero estar aqui, para redigir o seu obituário. Meu cansado Meireles. Eu realmente não sei que qualidade de homem você foi, mas sei que em breve, você será um ótimo gato."

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