A Coisa Perdida, 2010



Um menino encontra uma estranha criatura em uma praia e decide encontrar uma casa para ela em um mundo onde todo mundo acredita que há coisas muito mais importantes para se importar.


O Curta “The Lost Thing” venceu o Oscar de Melhor Curta de Animação em 2011

The Lost Thing é um curta de animação, de Shaun Tan and Passion Pictures Australia

A Coisa Perdida


Tradução
Quer ouvir uma história?
Bem, eu conhecia algumas bem interessantes.
Algumas tão engraçadas que os fariam morrer de rir.
Outras tão terríveis que não iriam querer repeti-las.
Agora não me lembro de nenhuma delas.
Então contarei a de quando encontrei a coisa perdida.

Tudo aconteceu muitos verões atrás, lá na praia.
Como de costume, eu procurava garrafas pra minha coleção.
Até avistar a coisa.
Ela não estava fazendo nada demais.
Apenas estava lá, de um jeito bem estranho.
Sabe! Um jeito triste e perdido.
Ninguém mais parecia notá-la. Ocupados demais fazendo outras coisas, eu acho.

Olá?

Acabou se mostrando bem amistosa.
E brinquei com a coisa quase a tarde toda.
Foi muito divertido!
Mas o tempo todo sentia que algo não estava certo.

O tempo passava e com ele, a probabilidade de alguém vir buscar a coisa.
Logo não havia como negar a triste realidade.
Ela estava perdida.

Perguntei a algumas pessoas se sabiam algo sobre ela.
Levei a coisa perdida até a casa do Pete.
Pete tinha conceitos sobre quase tudo.

"Legal" - ele disse.

Pete não sabia que coisa ela era, exatamente.
Mas disse que sempre era alguma coisa.
Que toda manifestação física pode ser identificada empiricamente por observação, medição calibrada e experimentação controlada.
Por fim, Pete se rendeu.
Concluiu que a coisa não era nem viera de lugar nenhum.

"Algumas coisas são assim." - ele disse.
Estão simplesmente perdidas.

Não havia nada a fazer, senão levar a coisa pra minha casa.

Quanto aos meus pais...
Sabia que mamãe ficaria aflita com a sujeira dos pés.
E meu pai, com todos os tipos de doenças misteriosas.
Ambos queriam que a levasse de volta pra onde a encontrei.

Mas ela está perdida! - eu disse.
Não que fizesse diferença.
Decidi esconder a coisa no barracão dos fundos.
Pelo menos até decidir o que fazer em seguida.
Não podia simplesmente deixá-la vagando pelas ruas.

A coisa perdida parecia feliz.
Mas não podia mantê-la no barracão pra sempre.
Meus pais acabariam descobrindo ao procurar um martelo ou algo assim.
Era um verdadeiro dilema.

Sente que sua rotina foi inesperadamente perturbada?
Está sofrendo com bens não solicitados?
Objetos sem nome?
Artefatos incômodos de origem desconhecida?
Coisas que simplesmente não se enquadram?
Não se apavore!
Temos um lugar para colocá-las.
O Departamento Federal de Miudezas.

Na manhã seguinte pegamos um bonde pro outro lado da cidade.
Chegamos a um edifício alto e cinza, sem janelas.
Cheirava a desinfetante.

Tenho uma coisa perdida - disse pra recepcionista.

"Preencha os formulários." - ela suspirou.

Procurava por uma mesa quando subitamente senti algo tocar meu cotovelo.
Então ouvi uma voz baixinha.

- Se realmente se importa com essa coisa, não devia deixá-la aqui.
Esse é um lugar pra esquecer, deixando pra trás. Aqui, pegue isso.

Valeu! - eu disse.

- Não devia deixá-la aqui...

Era uma espécie de indicação, eu acho.
Não parecia muito importante.
Mas parecia apontar pra algum lugar.

Acabamos encontrando o que parecia ser o lugar certo.
Uma abertura escura em uma ruazinha anônima.
O tipo de lugar que nem se nota se não estiver procurando.

Ainda penso na coisa perdida de vez em quando.
Especialmente ao ver de relance algo que não se encaixa.

Sabe! Algo com um jeito estranho, triste e perdido.
Vejo esse tipo de coisa cada vez menos hoje em dia.
Talvez não haja mais tanta coisa perdida.
Ou talvez... eu simplesmente tenha parado de percebê-las.
Ocupado demais fazendo outras coisas, eu acho.


Um comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...