Bud's Songs Time



O curta conta a seguinte história...

O sol ainda brilha no fim da tarde, deixando a paisagem levemente amarelada no deserto de Gueramba.

O velho Roxx vem caminhando pela estrada de terra, repetindo seu trajeto diário.
Há algumas horas deixou a vila mais próxima, se abasteceu de uísque vagabundo e partiu.
É sempre assim: uma leve embriaguez e pouca bagagem. Trás consigo seu violão de três cordas dentro de um case surrado, abaixa a aba do chapéu e vai, com os cabelos brancos emaranhados e a barba rala.

Enquanto caminha vai murmurando uma canção, daquelas que ficam dando voltas na mente, e no compasso da melodia ele avança fazendo com que as cercas na beira da estrada pareçam linhas de uma partitura. Roxx segue o trajeto até que avista seu lugar favorito: um toco de madeira à sombra de um baobá.

Já sentado, ele tranquilamente coloca o case no colo, abre a tampa e pega o violão.

O vento sopra devagar enquanto Roxx dedilha.
Sem demora ele começa a executar um de seus temas favoritos. Faz parte de uma série que nomeada de “Canções do Bud”.

É um som agudo beirando algo estridente, mas que sai fluído, intercalando com pequenos estalos e burburinhos que o velho faz com a boca.
A música preenche o ambiente e a vegetação seca balança no ritmo. O som é quase visível.

A alguns metros dali alguém não está tão contente assim com aquela canção, pois aquelas notas adentraram em sua caverna, e o tirou de um sono tranqüilo.

E o velho Roxx continua tocando. Em alguns pontos da música ele para de tocar e busca por algo ao longe, apertando os olhos e fechando o semblante.
Assim segue por um bom tempo, sem cansar, tocando e parando, tocando e parando, sempre respeitando a melodia.
É tudo muito calculado, como se o som estivesse criando uma fórmula.
De repente o solo estremece. E o velho sorri de canto de boca.
Mais um pisão, outro tremor. Parece que alguma coisa grande vem caminhando em sua direção.

A criatura se aproxima a medida que a música acelera.
Vem pulando ao longo da planície, marcando o contratempo cada vez que atinge o chão. Roxx toca enquanto tudo treme, cada vez mais veloz e mais virtuoso.
Enfim a música chega a seu ápice, assim que uma enorme sombra para sobre o velho.

Silêncio. O vento geme no deserto.

Agora eles estão frente a frente. Roxx e Bud.
O velho mesmo que deu este nome pro monstro, pois apesar de seu aspecto nada agradável ele lhe parecia amigável.
E os dois se encaram num momento de apreensão.
Bud está ofegante e visivelmente estressado, parece estar a ponto de explodir.
E Roxx pelo jeito sabe disso, pois volta as mãos ao violão e entoa uma última frase melódica, rápida e aguda.

É o estopim para que Bud sofra uma reação bizarra. Seu corpo se esvazia como uma enorme bexiga e sai voando pelo céu em grandes rodopios.

O céu ainda era azul em Gueramba.

O velho Roxx gargalha satisfeito.
Pra ele não existe nada mais engraçado do que ver aquele grande bochechudo se retorcendo até murchar.

O sol está se pondo no deserto.
E Roxx ainda toca sua canção, apesar de Bud já estar bem longe dali, e sabendo que foi só mais uma tarde como tantas outras iguais e já imaginando como vai acordar seu velho amigo no dia seguinte.

Pois é assim que a vida segue no deserto de Gueramba, tranqüila e solitária, mas sempre com um tempinho para mais uma canção do Bud.


Curta-metragem produzido por Hélder Nóbrega, como trabalho de conclusão na Escola Melies. Hélder é animador e diretor de arte em São Paulo, e um dos sócios de uma produtora de animação, a Mellon Studios.

Direção, Design e Animação: Hélder Nóbrega (Mellon Studios)
Trilha Sonora e Sound Design: Daniel Amaro e Hélder Nóbrega (Mellon Studios)
Violão: Ricardo Lima
Vozes: Mauro Castro e Ulisses Bezerra

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